Um entre cada seis tumores é provocado pelo ataque de vírus, bactérias e companhia. Investigamos como as infecções abrem brecha para a doença e quando é possível prevenir a dupla ameaça
   Os micro-organismos retratados ao longo desta reportagem fazem parte de uma mesma quadrilha: após invadir o corpo humano e se reproduzir dentro dele, têm a capacidade de criar condições propícias para um câncer aparecer. Quem pensava que a atuação desses criminosos invisíveis a olho nu não representava perigo em larga escala vai se impressionar com os números colhidos por um estudo recém-publicado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, com dados de 184 países. De 12,7 milhões de novos casos da doença registrados em 2008, pelo menos 2 milhões estão intimamente associados a infecções. O inquérito ainda descobriu que, se as agressões virais ou bacterianas fossem frustradas a tempo, cerca de 1,5 milhão de vidas seriam poupadas. 
   “A participação das infecções no câncer ainda é subestimada, sobretudo nos países em desenvolvimento, locais mais acometidos por esse problema”, analisa a epidemiologista francesa Catherine de Martel, uma das líderes do trabalho. “Enquanto na América do Norte os micro-organismos estão por trás de 3% dos tumores, na África subsaariana um terço de todos os cânceres tem origem infecciosa “, conta. Esses males apresentam, portanto, uma conexão com o grau de desenvolvimento da região — e do acesso à informação e ao meio médico. 
  Chama atenção outro dado coletado pelo estudo internacional: 95% dos casos de câncer ligados a infecções são protagonizados pelo HPV, a bactéria H. pylori e os vírus das hepatites B e C. Contrair um desses bichos não prediz o aparecimento de um tumor no futuro, mas, claro, aumenta consideravelmente essa probabilidade. Tudo depende do tempo que cada um dos tipinhos nefastos está ali e da propensão do hospedeiro. Há, contudo, algumas nuances que acompanham esse raciocínio. “Hoje acreditamos que não existe câncer de colo de útero sem HPV”, afirma a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo. “Já a presença da H. pylori não significa necessariamente que o indivíduo terá a doença no estômago. Mas buscamos erradicar a bactéria para reduzir o risco”, completa o oncologista Samuel Aguiar Júnior, do Hospital A.C. Camargo, na capital paulista. 
    Micro-organismos dispõem de vários meios para semear, às vezes até sem querer, o mal. Nas hepatites B e C, por exemplo, se observa um duplo estímulo pró-câncer. “Os vírus em si induzem alterações nas células do fígado que favorecem o problema, principalmente o tipo B. Além disso, a cirrose, decorrente de décadas de hepatite sem tratamento, contribui para o surgimento do tumor ali”, explica o infectologista Evaldo de Araújo, do Laboratório de Hepatites Virais do Hospital das Clínicas de São Paulo. 
   Recentemente, outro agente infeccioso foi parar em julgamento. É o citomegalovírus, bastante comum na população, mas cuja passagem ou permanência no organismo raras vezes dá sintoma. O réu é acusado de estar envolvido em tumores de glândula salivar, mas ainda não se comprovou em seres humanos se ele realmente provoca o tormento. Até o momento, o meliante carrega mais a culpa de dar força para o problema já instalado. “O processo de proliferação e disseminação do câncer se acelera na presença do vírus”, explica a bióloga Maria Cristina Carlan da Silva, da Universidade Federal do ABC, na Grande São Paulo. 
   Outros vírus e bactérias estão sob investigação por possíveis alianças com o câncer. Uma associação explorada nos últimos anos é a da doença periodontal — que começa com uma gengivite e pode levar à perda dos dentes — com tumores na cavidade oral. “Sabemos que micro-organismos da placa bacteriana liberam compostos cancerígenos, mas ainda não foi estabelecida uma relação direta”, diz Cláudio Pannuti, professor de periodontia da Universidade de São Paulo. “É comum, no entanto, flagrarmos uma higiene dental deficitária entre pacientes com câncer bucal.” 
   Os micróbios costumam trabalhar a favor dos tumores de modo mais indireto também. Basta pensar em infecções que deprimem o sistema imune, como a do HIV. “Os soropositivos que desenvolvem aids correm maior risco de alguns tumores, como os provocados por vírus oportunistas”, conta a infectologista Roberta Schiavon Nogueira, da Sociedade Paulista de Infectologia. “Daí a necessidade de detectar o HIV e entrar com o tratamento quanto antes”, completa. 
   Até a flora intestinal, nossa coleção particular de bactérias, influenciaria a probabilidade de ter um câncer, especialmente nos confins do aparelho digestivo. “É provável que haja perfis de flora que tornam o intestino mais suscetível à doença e interfiram inclusive na resposta ao tratamento”, diz Aguiar Júnior. 
Conhecimento — seja fruto de pesquisas em laboratório, seja de trabalhos epidemiológicos — é crucial para esclarecer e derrubar a ponte entre infecção e câncer, bem como todos os atalhos envolvidos nessa via. Os números do último levantamento global, publicado na respeitada revista médica Lancet Oncology, reforçam a importância de ficar alerta a esse elo. “A maior parte dos tumores de origem infecciosa poderia ser prevenida com imunização e métodos de rastreamento, exigindo gastos mínimos se comparados aos dos tratamentos”, avalia Catherine. Ora, não dá para menosprezar os micróbios, muito menos quando eles têm uma queda pelo câncer. 
A doença em números 
12,7 milhões de novos casos de câncer foram registrados no mundo em 2008 
2 milhões estão associados a infecções 
1,9 milhão desses tumores são detonados por HPV, hepatites B e C e pela bactéria H. pylori