Se não quer que o bebê receba nada além do seu leite, avise o pediatra e a equipe de enfermagem
Estava em uma maternidade visitando uma amiga que havia acabado de ter bebê. Quando estava indo embora, ela resolveu me acompanhar até o corredor para se despedir e aproveitar para dar uma espiadinha no filhote, que a enfermeira havia acabado de levar para trocar de roupa. A mulher estava de costas, então, nós nos dirigimos ao vidro lateral do berçário e vimos que ela estava dando um líquido para ele no copinho.
Achamos estranho e minha amiga foi perguntar o que era aquilo.
– É água com glicose, respondeu a enfermeira.
– Mas por quê?
– Esse é um procedimento do hospital e é prescrito pelo pediatra para todos os bebês. Tanto a água com glicose quanto o leite artificial (na verdade, ela disse o nome de uma marca conhecida).
– Ah.
Achamos aquilo estranho, afinal o bebê estava, absolutamente, calmo e saudável. Fui embora encasquetada com aquela história. Se a recomendação da Organização Mundial de Saúde é aleitamento materno exclusivo até os seis meses, dar água com glicose ou leite artificial nos primeiros dias de vida sem necessidade não faz nenhum sentido, certo?
Quando a Luísa nasceu (naquela mesma maternidade), três anos antes, eu tinha muito menos informação e mais tranquilidade do que hoje. Eu entregava a minha filha nas mãos das enfermeiras e dos médicos e confiava que eles sabiam o que era melhor para ela e para mim.
Mas, quando ocorreu aquele episódio da minha amiga, eu já não pensava mais da mesma forma e resolvi agir. Em nome da minha amiga, da minha posição de mãe-blogueira-jornalista e também em causa própria, já que a ideia era parir, muito em breve, a minha segunda filha ali também.
Cheguei em casa e liguei para a assessoria de imprensa. Fui prontamente atendida. A resposta sobre a água com glicose foi a seguinte:
– A água com glicose é um procedimento autorizado e aplicado pelo hospital, com a prescrição do pediatra, apenas nas seguintes situações: casos de hipoglicemia, bebês que estão em tratamento de fototerapia ou quando a mãe não teve colostro.
O fato é: nenhuma dessas situações se encaixava no caso da minha amiga. Ou seja, ficou claro ali que a enfermeira deu a água com glicose como um “sossega leão” porque o bebê (que tinha acabado de mamar) estava chorando. Oi? Bebê recém-nascido chorando? Que coisa estranha, não?! Bom, poderia ter sido pior. Ela poderia ter dado leite artificial.
Fiquei pensando: será que é por isso que os bebês nos berçários são calmos e quase não choram e, quando chegam em casa, mudam de comportamento, deixando muitos pais apavorados achando que estão fazendo tudo errado?
Havia, realmente, prescrição do pediatra no prontuário do filho da minha amiga (descrita como AG), assim como tinha a prescrição para todos os demais bebês daquele berçário. Na verdade, o padrão era o pediatra deixar a prescrição pronta e as enfermeiras determinarem se havia a necessidade de aplicar ou não, conforme o caso, já que são elas que acompanham os bebês mais de perto.
A diretoria do hospital, posteriormente, justificou-se dizendo que a prescrição prévia é adotada para agilizar os processos quando há necessidade de aplicação (para que as enfermeiras não tenham de percorrer o hospital atrás do pediatra de plantão). Mas, por outro lado, a prática dá margem a diferentes interpretações da equipe de enfermagem sobre qual é a real necessidade do bebê.
Depois daquilo, minha amiga ficou tão assustada achando que o bebê estava grogue que não deixou mais o filho sair de perto dela. Aliás, a grande tendência é que as crianças saudáveis passem a maior parte do tempo (melhor ainda se for o tempo todo) com os pais no quarto, no chamado alojamento conjunto, e não no berçário. Dessa forma, qualquer procedimento com o bebê precisa ser feito na frente dos pais.
O que eu penso é que se esse problema da água com glicose e leite artificial sem necessidade aconteceu (e talvez ainda aconteça) ali, em uma das maternidades mais conceituadas de São Paulo, certamente, acontece em outras.
Fica meu alerta: se seu filho é saudável e você não quer que ele receba nada além do seu leite/colostro na maternidade, fique de olho e avise o pediatra e a equipe de enfermagem. O choro do bebê na maternidade não é de fome, acredite. Ele nasce com uma reserva de gordura, tanto que perde peso nos primeiros dias, e o colostro é suficiente para saciá-lo, mesmo sem ter a gordura do leite.
O uso da água com glicose ou leite artificial pode ser o primeiro passo para uma história de amamentação malsucedida. Como disse uma amiga, nós nos preocupamos com o enxoval e com o quadrinho da maternidade, mas esquecemos do principal: o bem-estar de nossos bebês e o que fazem com eles quando estão longe de nossos olhos.
Fonte: Mulher